
Eis que te sinto chegar antes de ter ver. E vejo-te então por entre a multidão, adivinho os teus passos, sinto-me invadida pelo teu sentir no momento exacto em que aprisiono o teu olhar, naquele segundo em que em simultâneo respiramos fundo sem conseguir libertar o ar dentro de nós, para assim alargar espaço e dar lugar ao coração que, de repente, nos sobra no peito.
E ficas preso a mim, ligado por um fio invisível, mas tão palpável, que quase chega a incomodar quem, apressado, passa entre nós. É este o momento mágico que dura um segundo mas vale por uma vida. O momento em que eu não sou ainda eu, nem tu és tu e em que tudo é ainda possível de acontecer e de vir a existir para sempre entre nós, o instante exacto em que sonho e realidade se cruzam, em que bastaria uma palavra mágica para todo o mundo ser nosso.
Mas eu sei quão breve é esse momento. Olhos que se perdem, mãos que não se dão, ar que por fim abandona o meu peito, coração que aceita sem sossegar, com revolta se cala e aprende contigo a fazer de conta que foi engano, que o amor afinal não mora ali.
E eu penso então que aquele momento talvez pudesse ser tudo, mas afinal não foi nada. E que o amor não existe no meu peito para ser negado, mas sim acarinhado. Realizo que não devia ter vindo e quando me alcanças, te inclinas para mim e me cumprimentas, tu não o sabes, mas eu já fui embora.