
Lembro-me de outras noites nossas sem dormir, noites em que fugíamos para o mar, sob um céu de estrelas cadentes, e eram tantas que choviam sobre nós que muitas se escapavam ao contar dos nossos desejos. Do mar tínhamos o som das ondas e o reflexo que dele nos chegava no luar. Pedaços de luz transformados em brilhos mil que molhavam os nossos olhos. E era tanto esse mar que se fazia infinito azul aos nossos pés. Éramos então felizes na esperança do amanhã, ainda que esse amanhã não nos pertencesse. Não importava ainda assim, porque cada um daqueles instantes era o mundo. E esse mundo era só nosso.
Assim como agora é só nosso este amanhecer sobre a nossa ausência. Perdemo-nos um do outro em portos inconstantes. Corremos mundos diferentes em ânsias perdidas de descobertas vãs. Para mais tarde ambos voltarmos à praia que foi nossa, lugar onde ambos ancorámos os nossos desejos por cumprir. Mesmo sabendo que era tarde demais para os encontrar. Outros antes de nós os viveram e chamaram seu ao que só a nós dois pertencia. De nosso não sobrou nada. Ambos regressámos de mãos vazias de tantas viagens, para vermos os nossos tesouros saqueados.
Resta-nos apenas a manhã que agora se faz dia. Olho para o meu lado e não te vejo. Toco as rugas no lençol, a marca na tua almofada, sinto o teu cheiro que invadiu a minha pele, mas não te vejo mais. E nesta noite que agora se acaba, não sei se te vivi se te sonhei.